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A luta do(s) Eu(s)

  • Foto do escritor: Paulo Russo
    Paulo Russo
  • 17 de mar. de 2021
  • 4 min de leitura

“Um pensamento, uma voz, uma oposição, uma acusação que não me deixa em paz...”.

Muito comum na clínica este tipo de queixa, onde o sujeito descreve um conflito, uma espécie de luta entre o eu e um outro eu, causando confusão, uma espécie de desorientação, comumente em processos de decisão ou em situações em que há uma certa dúvida de que caminho seguir.

Mas do que será que se trata esta divisão, este sentimento de quase uma fragmentação do nosso eu? Como sabemos nosso aparelho psíquico é composto das famosas instâncias psíquicas definidas por Freud como id, ego e euperego (ou supereu); o Id como representante de nossas pulsões e totalmente inconsciente, o Ego como uma espécie de negociador entre as exigências do mundo externo e as solicitações do Id (sempre em busca de prazer) e o julgamento moral do Superego. Parte do Ego e Superego também são inconscientes.

No começo tudo é Id, o bebê é todo pulsão, os primeiros choros por fome somente, e ao descobrir o prazer no ato de amamentar, passa a chorar também pela satisfação do prazer tão desejado no ato de sucção do peito da Mãe, o bebê sente como sendo uma única coisa com a Mãe.

Ao pensar em como o ego se formaria na criança, Freud imaginou como sendo um novo ato psíquico, algo na ordem de um certo reconhecimento da realidade, uma descoberta necessária para que esse id sedento de prazer pudesse achar caminho diante desse novo mundo descoberto, ou seja, o mundo externo e sua realidade. Assim o ego, ainda incipiente, é formado como uma extensão do id, e sua função é atender as solicitações desse id e do mundo externo, uma espécie de gestão entre exigências pulsionais internas e a realidade externa.

Lacan, em seu retorno a Freud define este momento de surgimento do ego como o momento em que a criança se vê em um espelho e consegue se identificar como ser único, identifica seu corpo como seu. É a famosa teoria do Estádio do Espelho de Lacan (Já abordado em outro exto).

Já nesse ponto podemos pensar que de uma “voz”, passamos a ter duas, uma exigindo satisfação das pulsões (id) e outra como sendo responsável por atender, por assim dizer, estas demandas.

Como herança do Complexo de Édipo (falo sobre isso em outro texto do blog), eis que surge o Superego, a chamada instância parental. Conjunto de todas as mensagens introjetadas de nossos pais, professores, religião, cultura etc., o superego é a voz censora e moral, responsável por nos julgar e punir o tempo todo, e de, digamos assim, fornecer uma visão de mundo baseado nesses valores introjetados (ideal do ego). Eis que surge a terceira voz.

Vemos aí a luta que o pobre ego tem que realizar na tentativa de atender as demandas do id, do mundo externo e sob o julgamento do carrasco superego. São estas “vozes” que estão em cena diante dos inevitáveis conflitos acarretados na maioria das neuroses, causando culpa, angústia (e ansiedade), o tal sentimento de “baixa estima”, sintomas estes classificados na psiquiatria como depressão, toc, síndrome pânico, manias etc. e normalmente tratados com várias drogas conforme o não menos famoso manual de diagnósticos DSM.

As neuroses em geral falam desses conflitos, nesta luta onde o desejo do indivíduo é meio que solapado diante da fantasia fundamental onde o desejo de ser o desejo do Outro domina a cena, e tudo que se quer é ser objeto de amor e admiração deste Outro, uma espécie de narcisismo exacerbado.

Vários aspectos da sociedade contemporânea, tem impacto no desenvolvimento do sujeito; novos valores, novos ideais, novas formas de composição familiar, maneiras de exercer a sexualidade, identidade de gênero etc. Percebe se então uma luta constante entre parcelas da sociedade interessadas em manter a chamada tradição e bons costumes e assim excluir aqueles que são “diferentes” (que de alguma forma subvertem a lei vigente e bancam seu próprio desejo) e os grupos ditos progressistas, que acreditam que todos tem o direito de serem o que desejam, apesar das normas sociais, familiares, religiosas etc. e são justamente esses últimos os grandes responsáveis pelas mudanças culturais em uma sociedade.


A psicanálise propõe, através da escuta e associação livre, justamente percorrer estes caminhos do inconsciente que levaram aos conflitos e sintomas que tanto o fazem sofrer e o impedem de viver em paz com seu desejo. Compreender este mundo escondido não é tarefa fácil, demora, leva tempo, dói, e devido a nossos mecanismos de defesa, muitas vezes nos fazem desistir no meio do caminho.

Em seu texto de 1914 “Recordar, Repetir, Elaborar”, Freud nos mostra como o processo deste percurso é uma repetição constante, uma repetição de algo que de alguma forma nos aprisiona e paralisa, causando aí os sintomas como uma espécie de saída possível de nossos conflitos. Fazer análise é exatamente isso, uma elaboração daquilo que se repete, e o lembrar é produto das associações livres, interpretação de sonhos, chistes etc., e o analista atua através da transferência; processo de identificação e projeção que abordarei em detalhes em um próximo texto.

Lacan ao falar do tempo da análise, lança mão do conceito do tempo lógico, próprio da análise e suspensa, por assim dizer, do tempo cronológico; digamos em termos simplistas como sendo o tempo do inconsciente. Segundo ele, há três tempos no processo analítico; o tempo de ver, o tempo de compreender, e o tempo de concluir. Penso nos tempos de ver e compreender como parte do “recordar, repetir, elaborar” de Freud, e o tempo de concluir, o fim da análise, onde, segundo Lacan, o individuo se torna ele próprio um analista.

 
 
 

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2020 por Paulo Russo Psicanálise

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